Para marcar posição
Um espaço de cultura e resistência
Rede Cidadania inaugura Biblioteca Comunitária, no Getúlio Vargas, e rende homenagem à jovem assassinada
Carlos Queiroz -
A sala é minúscula. O acervo também é pequeno. Mas o sonho jamais caberia em prateleiras. Neste sábado (11), às 13h30min, a Rede Cidadania inaugura a Biblioteca Comunitária Agata Esteves, no loteamento Getúlio Vargas, em Pelotas. A intenção é muito clara: incentivar a leitura e apostar na Educação; contrapontos para fazer estancar a violência que os faz reféns do medo. Há menos de seis meses, a jovem que dá nome ao espaço foi executada a tiros, em meio a um acerto de contas de grupos rivais.
Restaram uma família dilacerada, a dor dos amigos e uma pergunta de rasgar tímpanos: quem será a próxima vítima? É uma dúvida que atormenta os moradores, espremidos entre o estigma que historicamente os divide em duas classes - vagabundos ou bandidos -, a criminalidade em alta e o poder destruidor das facções. Estão ali instituídas, próximo à porta de casa.
O momento, portanto, é de resistir. E a biblioteca comunitária surge neste contexto, como um grito de que é possível, sim, construir novos tempos. "Queremos fazer diferença e abrir a mente das crianças através da leitura", reforça o estudante do 2º Ano do Ensino Médio, Richard Cavalheiro, 19, enquanto colabora na organização do ambiente.
A adolescente Vitória Teixeira, 17, também se entusiasma com a possibilidade de apresentar o universo da literatura ao filho Lincoln, de dois anos e cinco meses. De volta aos estudos, a jovem cursa o 7º Ano do Ensino Fundamental e projeta ir adiante. Quem sabe uma vaga em um curso de Enfermagem? Sonhos que eles compartilham em bate-papos na sede da Rede Cidadania, na rua 4, número 113.
"É preciso encontrar novas razões para continuar"
A uruguaia Ana Gloria Techera, 48, luta para recompor o chão sob os pés. Desde a manhã de 17 de fevereiro, quando recebeu a notícia do assassinato da filha Agata Techera Esteves, 20, as noites são de insônia. E as frases que retumbam na mente também são as mesmas: "Não é verdade. Não tem explicação. Não faz sentido".
A caçula de cinco filhos morava há cerca de seis meses no loteamento Getúlio Vargas e, naquela madrugada de sábado, apenas voltava de uma festa com o namorado. Era para ser uma noite de descanso, depois de algumas horas de diversão. Mas não foi assim. Era cerca de 5h30min. Caminhavam pela rua 14. De repente, os dois se viram em meio a um confronto de grupos rivais; instantes depois da morte de um outro jovem no Getúlio, na rua 12. Ao todo, foram mais de 30 disparos.
"Agora tudo é desculpa pra facção, mas não é só o tráfico o culpado. Acho que o descaso do Poder Público também é culpado do que tá acontecendo", desabafa. E para dar ainda mais peso ao sentimento de que uma parte da sociedade está, sim, esquecida, Ana Gloria relembra a cena dilacerante daquela manhã.
Ao chegar à rua 14, às 7h10min, Agata permanecia deitada em um campo. Só por volta das 9h, quando a família desistiu de aguardar que Brigada Militar (BM), Polícia Civil, Instituto Geral de Perícias (IGP) ou Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) fossem socorrê-los, é que a jovem foi carregada dali. Nos braços do pai. Rumo ao Pronto-Socorro de Pelotas (PSP), com a esperança de que ainda pudessem salvá-la.
"Não era um traficante atirado num campo. Era uma família que estava ali, começando", resume Ana Gloria. Ao lado do namorado Mateus - que sobreviveu aos ferimentos -, Agata dedicava-se à criação da filha Daphinne, de quatro anos. E era, justamente, para garantir o sustento da pequena que, vez por outra, a jovem trabalhava em fábricas de conservas, na safra.
"A minha mãe sempre foi minha princesa e minha rainha. E eu também era a dela", resume Dadá, na pureza infantil. E retoma a brincadeira de amarelinha, na casa da avó.
Contribua e doe!
O acervo da Biblioteca Comunitária Agata Esteves pode crescer. E você pode colaborar. Interessam títulos de literatura para todas as faixas etárias, inclusive crianças.
O ambiente é simples. Caixas de madeira, pintadas pela assistente social Sílvia Solonet, se transformaram em prateleiras.
Para doações, faça contato pelos telefones (53) 98452-3731 e 98462-5724. Também é possível procurá-los através da Fanpage Rede Cidadania.
Relembre!
A Rede Cidadania foi lançada em março deste ano. A ONG Anjos e Querubins, com mais de 15 anos de incentivo a manifestações culturais, uniu forças ao Projeto Jovem Atleta para criar a Rede. Além de atendimento com psicólogo, assistente social e advogado, o trabalho - que conta com apoio de voluntários - tem um objetivo central: dizer não à discriminação e ao desrespeito a que a comunidade tem sido submetida, inclusive em abordagens policiais. Entre a população, há cidadãos honestos. Sim. Trabalhadores. Sim. Que querem, apenas, ter a chance de acalentar sonhos.
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